terça-feira, 28 de setembro de 2010

A viagem que mudou minha vida

Pode até soar estranho dizer que uma viagem mudou minha vida. Mas de fato, algumas experiências  abriram a minha mente de uma forma inimaginável.

Foi em junho de 2007. Finalmente, após muitos anos trabalhando como freelancer -  ganhando por hora, sem direito a férias, décimo terceiro, etc. - consegui alguns direitos na empresa em que eu trabalhava. Fui promovida da categoria “bico” para “assalariada sem registro”. Já era alguma coisa. Pelo menos passei a ter direito a férias remuneradas.

Como eu já tinha usado quinze dos meus trinta dias de férias no final de 2006, restaram mais quinze pra eu aproveitar no meio do ano. Passei então a planejar uma viagem que há tempos eu queria fazer. Destino? Pernambuco. Desta vez eu viajaria sozinha, tinha total liberdade para escolher o roteiro.

Resolvi comprar passagens para Recife. Já com as passagens compradas pensei: “Já que estarei tão perto, acho que vale a pena gastar um pouco mais e ir também para Fernando de Noronha”.

Comprei então novas passagens, de Recife pra Noronha. Consegui um preço promocional após muita insistência, verificando varias vezes por dia as tarifas no site da Varig.

Planejei tudo muito bem para que não acontecessem imprevistos.

Fiz a carteirinha do Hostelling International para me hospedar em albergues.

Tracei um roteiro e o segui rigorosamente.

Meu maior desafio seria encarar todos esses dias sozinha sem entrar em crise. A última vez que tinha tentado fazer isso não aguentei... estava em Florianópolis em uma praia maravilhosa e voltei correndo pra São Paulo, pela primeira (e última) vez passei a virada do ano na Avenida Paulista (visão do inferno, por sinal! Mas isso não vem ao caso agora...).

Cheguei em Recife no final da tarde de um sábado. Fui direto para o albergue de Olinda, onde eu tinha feito reserva. Passei uma noite lá esperando o voo do dia seguinte para Noronha.

Fiquei em um quarto coletivo, mas nele só estava mais uma garota, também paulista. Praticamente não tivemos contato. Naquela noite bateu uma sensação horrível. Fiquei meio depressiva. Comecei a me lembrar do que tinha acontecido em Florianópolis e achei que eu pudesse jogar tudo pro alto outra vez.  Sozinha e perdida no mundo... Depois de algumas horas nessa agonia, consegui dormir. Na manhã seguinte voltei para o aeroporto e embarquei para Noronha.

Por que eu me senti assim? Eu estava em um momento de muita indecisão. Estava buscando, nesses dias de afastamento, algumas respostas que eu não conseguia encontrar vivendo a minha rotina. A maior dessas dúvidas era sobre meu trabalho. Embora eu tivesse conquistado algumas coisas, ainda me sentia injustiçada por não ter alguns direitos. Anos e anos no mesmo lugar esperando um reconhecimento que chegou muito tarde. Fiquei com medo de, mesmo me afastando, não encontrar as respostas que procurava.

Fernando de Noronha

Ao chegar em Noronha foi como se eu estivesse em um sonho, esqueci completamente de tudo que eu havia sentido na noite anterior.
Chovia. No primeiro dia não sobrou muito tempo. Peguei a câmera fotográfica e fui até o forte dos Remédios. Não era o melhor dia para ver a paisagem, já que o céu estava encoberto. Mas ainda assim, avistar o morro do Pico com os Dois Irmãos ao fundo foi sensacional.

Fiquei hospedada na Pousada Nativa. Após enviar diversos e-mails fazendo cotação de preços, esta foi a única pousada que me cobrou tarifa menor por eu estar sozinha. Todas as outras queriam cobrar um valor equivalente à ocupação de duas pessoas. 

No dia seguinte, acordei mais tarde do que o planejado, esqueci que a ilha tem fuso horário com uma hora a mais que Recife. Já não dava mais tempo de fazer o passeio de barco para ver os golfinhos naquele dia. Então, saí andando sem rumo pelas ruas da Vila dos Remédios até encontrar a loja da operadora de mergulho Noronha Divers. Decidi, enfim, fazer um discovery (batismo). 

Para esperar o horário do mergulho, desci até a praia da Conceição e fiquei bebendo em um quiosque.

Nestas “paradas para beber” conheci algumas figuras bem interessantes que me contaram diversas histórias incríveis sobre a ilha.. como o assalto ao banco Real... outros assaltantes malucos que roubaram uma lancha e tiveram que ser resgatados no mar quando acabou o combustível... histórias de fantasmas... de moradores ilustres, etc.

Fui então fazer o primeiro mergulho autônomo de minha vida. Um pouco antes eu tinha escorregado no asfalto e machucado o joelho. Fui para o barco sangrando. No barco estavam duas senhoras cariocas que ficaram preocupadas, com medo de que tubarões pudessem me morder por causa do sangue.. hahaha.. foi ótimo... chegaram até a dizer pra elas: “Não tem problema, os tubarões daqui são vegetarianos”.. haha.. só faltava essa!
E não é que elas tinham uma certa razão?! Pra minha sorte, de todos os turistas, fui a única que viu tubarão naquele mergulho. Nunca vou esquecer da emoção que senti. Sempre fui fascinada por tubarões, desde criança... com uns três anos de idade eu prendi o dedo nos dentes de um pequeno tubarão empalhado no museu do mar em Santos... a minha curiosidade de tocá-lo era tanta que nem me importei com os dentinhos afiados!

Mergulhei com um tubarão Lixa, com cerca de um metro e pouco. O  bicho estava escondido em uma caverninha, quando nos aproximamos ele saiu nadando, e nós (eu estava acompanhada do Divemaster local) nadamos atrás dele por alguns segundos, até não podermos mais alcançá-lo. Lindo demais! Emocionante! Em minha primeira experiência de mergulho tive o enorme privilégio de ver animais maravilhosos em águas límpidas e quentes... simplesmente perfeito.

Descobri ali uma nova paixão (ou amor?): mergulho autônomo. Até então eu fazia apenas mergulho livre... que também pratiquei bastante por lá. Nestes mergulhos pude observar tartarugas, arraias, outra espécie de tubarão (bico fino) e diferentes espécies de peixes que eu não conhecia. 

Fiz outros passeios turísticos pela ilha... Praia do Sancho, baía dos Porcos, Praia do Leão, baía do Sueste, trilha do Atalaia... mirante dos Dois Irmãos, mirante do Forte do Boldró, Forte dos Remédios... Museu do tubarão... passeio de barco para ver os golfinhos rotadores... e mais alguns lugares dos quais não lembro mais.


Sem muito dinheiro, o jeito foi me virar comendo lanchinhos e outras porcarias... comprava pão de forma e frios no supermercado (não sei por que, mas acho que eu já contei essa história antes!). Tudo na ilha é muito caro, comida, hospedagem, passeios... tudo.

Todos os dias foram maravilhosos... foi delicioso ficar descansando na rede... ficar no bar jogando conversa fora... ficar perdida no tempo e no espaço sem preocupação alguma... 
Em uma das conversas de bar, alguém disse ter largado emprego estável, carreira e faculdade pra trabalhar na ilha. Confesso que isso veio muito a calhar... ouvir esse tipo de depoimento ajudou a sanar uma parte daquelas duvidas que eu tinha sobre a minha própria vida...

Olinda e Recife

Marco Zero - Recife-PE
Cinco dias em Noronha. Pouco. Muito pouco. Me arrependi de não ter planejado ficar mais dias. Mas não tinha mais como voltar atrás, meu roteiro estava traçado e Olinda estava a minha espera.

Em Olinda, fui muito bem recebida. Logo que cheguei encontrei um senhor que me levou para conhecer um ateliê onde também aconteciam cantorias, danças, etc. Até hoje recebo e-mails da programação dos eventos (morro de vontade de ir!). Olinda é uma cidade encantadora onde se respira arte, se vive de arte... onde se come muito bem, onde se bebe muito bem, e consequentemente, onde é possível se divertir muito bem!

Voltei ao albergue. Logo na primeira noite conheci um paulista do meu bairro (dá pra acreditar! mundinho pequeno!). E desta vez minha companheira de quarto era uma suíça. Saímos os três para beber aquela noite. No dia seguinte o paulista foi embora para o “São João” de Caruaru e a suíça foi pra Porto de Galinhas, onde nos encontraríamos dias depois.

Sozinha novamente, minha diversão diurna era pegar ônibus e ficar perambulando pelas ruas de Recife. Quando escurecia, eu voltava para Olinda e ia para o “bar do Velho”, onde sempre tinha muita gente e trios de forró tocavam a noite toda.

Nestes dias eu queria mesmo viver a vida urbana e cultural de Recife, andei pelo centro da cidade, visitei museus, bati altos papos com os cobradores dos coletivos que peguei... pude sentir um pouco de “casa” naqueles dias. Mas com a diferença de que era época de festas juninas, e lá eles levam isso muito, muito a sério. Em todos os cantos da cidade tocavam músicas juninas... bandeirinhas e balões espalhados por todo canto... uma programação cultural extensa durante o mês todo. Que delicia! Eu adoro festas juninas! No dia de São João eles têm a tradição de acender uma fogueira na porta de casa. É praticamente sagrado. Incrível.
 
Em meu penúltimo dia na cidade aconteceu, enfim, o que todos me alertaram pra que eu tomasse cuidado. Desde o primeiro dia que cheguei em Recife tive vontade de fazer uma fotografia de casarões antigos refletindo num canal sujo (quase como os prédios refletindo no Rio Pinheiros). O cheiro era ruim, mas a foto certamente ficaria ótima! Decidi fazer a foto, ao atravessar a rua, antes mesmo que eu pensasse em tirar a câmera da bolsa, fui encurralada por dois pivetes que me assaltaram com um pedaço de tijolo (sim, é bizarro!). Logo de inicio eu não entendi o que eles queriam, até que fazendo um esforço percebi que eles só queriam meu celular.. Entreguei o celular e um deles ainda reclamou do modelo.. hahaha.. era um celular bem vagabundo. Conclusão: fiquei sem meu despertador... minha operadora nem tinha sinal na cidade... só usei o celular como relógio, nem me preocupei em fazer o bloqueio imediatamente. Por sorte, não perdi a câmera, mas não consegui fazer a bendita foto! Em todos os meus anos de vida eu nunca tinha sido assaltada, nem mesmo vivendo em São Paulo, mas, como gosto de viver intensamente as experiências dos lugares para onde vou, até isso foi interessante do ponto de vista antropológico... hahahahaha

Porto de Galinhas - Ipojuca

Depois destas “emoções” em Olinda e Recife, peguei um ônibus para Porto de Galinhas. Fiquei hospedada no albergue local. Dividindo o quarto comigo, estava a mesma garota de Olinda. Mas lá pude conhecer umas garotas de Curitiba que estavam em outro quarto.

Em porto de Galinhas peguei maré cheia e chuva todos os dias. Não foi possível fazer o tradicional passeio de jangada pelas piscinas naturais. Elas simplesmente desapareceram. Não tinha muito o que se fazer por lá com chuva. Então eu passava a maior parte do tempo no bar (essa história também é repetida!) com as garotas do albergue e eventualmente com outras pessoas que estavam lá para um congresso não sei do quê. 

Fizemos um passeio de jipe para o pontal do Maracaípe debaixo de chuva. Mas pelo menos deu pra pousar de bacana na foto quando o sol deu as caras e a chuva uma pequena trégua!

Fiz mais um mergulho autônomo. Outro discovery, já que eu ainda não era mergulhadora credenciada. Foi muito mal sucedido. Visibilidade muito reduzida. Eu não tinha experiência e ainda por cima tive problemas com falhas no equipamento, que pelo jeito não tinha manutenção alguma. Acabei abortando o mergulho na metade, não tinha condições de continuar naquela situação. Foi uma experiência ruim, bastante tensa.


Em Porto de Galinhas, aproveitei mais o que a vila tinha a oferecer do que as praias e belezas naturais... até mesmo pelas condições climáticas. Quero muito voltar em outra época do ano para conhecer as tão famosas e cristalinas piscinas naturais. Mas mesmo assim valeu a pena, foram dias de total relaxamento e curtição.

Depois de cinco dias em Porto de Galinhas, voltei pra casa. Voltei ao trabalho também, mas não por muito tempo.

Consegui sobreviver a todos esses dias! Consegui também encontrar algumas das tais respostas que  eu procurava. Dei então inicio a uma nova fase em minha vida: pedi demissão. E embora minha fonte de renda ainda venha de um trabalho burocrático, estou tentando me profissionalizar no mergulho... para que (quem sabe um dia) eu também consiga largar a vida no caos para viver em algum dos muitos lugares paradisíacos espalhados pelo mundo.


Fico feliz por, hoje, ser uma QUASE Divemaster. Não que isso seja grande coisa, mas é um avanço. Pelo menos pude sair do lugar e dar uns passos à frente rumo a tão desejada “realização pessoal”.

Neste momento em que estou escrevendo essa história, estou revivendo um pouquinho de tudo... fiz boas amizades, conheci pessoas muito interessantes, vivi sensações intensas... descobri o quanto viajar sozinha é bom. E que não há motivo algum para entrar em pânico quando surgem as dificuldades, muito pelo contrário.

O isolamento pode ser esclarecedor...

Preciso fazer outra viagem dessas, já estou cheia de novas dúvidas! E como as dúvidas que surgem na vida são intermináveis, espero que as viagens também sejam!


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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Quem sou eu pra julgar?!


De volta ao tribunal do júri. Após um ano e qualquer coisa de descanso, lembraram que eu existo.

Há aproximadamente 14 anos sou forçada a cumprir obrigações com o estado, estando sujeita aos rigores da lei em caso de descumprir qualquer determinação que me for passada.

Aos 18 fui convocada para trabalhar como mesária nas eleições. Uma vez (ou duas com o segundo turno) a cada dois anos, não poderia ser tão tão ruim assim. Não, de fato não seria se eu soubesse o que me esperava dez anos depois. Mas na época eu trabalhava em um instituto que realizava pesquisas de boca de urna no dia da eleição, como consequência eu deixava de ganhar um bom dinheiro com meu trabalho remunerado (eu era freelancer) para ganhar um ticket Planvale de “déiz REAL” (ninguém aceitava essa tranqueira!). Isso me deixou profundamente revoltada naquela época. Mas até que me diverti bastante, os outros mesários eram muito bem humorados e conseguíamos fazer piadas com a nossa situação, os eleitores se sentiam tão à vontade que nos levavam bolachinhas e outras guloseimas!  

Após cinco eleições seguidas, finalmente fui liberada. Que felicidade!! Pena que esta felicidade não tenha durado mais do que um mês. Logo recebi uma carta de convocação para ser jurada. Desta vez eu deveria comparecer ao fórum uma vez por mês, e ficar o dia todo (ou até dias, dependendo do caso) à disposição.

Após a leitura da carta me senti lisonjeada! Afinal não é sempre que recebemos uma carta com palavras tão gentis quanto estas:

... Tenho a honra de comunicar que Vossa Senhoria foi sorteado(a) para servir como Jurado(a) deste Egrégio Tribunal, nos dias e horários abaixo, até ser dispensado(a) de acordo com a lei, ficando Vossa Senhoria, POR FORÇA DA LEI, o decorrer do período em que estiver convocado(a), desobrigado(a) de qualquer outra atividade funcional, sem prejuízo de salário e outras vantagens...

Seria maravilhoso matar uns dias de “trampo”... ah.. seria! Se eu fosse funcionária registrada, mas eu continuava sendo freelancer e consequentemente continuei a ter prejuízos deixando de ganhar meu dia de trabalho.

Não preciso nem dizer que isso não me deixou muito contente. Não apenas por estar novamente sendo obrigada a cumprir funções que em tese não deveriam me trazer prejuízos, mas que traziam (ainda trazem), mas também por não me sentir à vontade na função em questão.

Não gosto de julgar ninguém por suas atitudes, nem mesmo aos criminosos. Em algum momento da vida todos fazemos algo que a sociedade julga como ilegal, imoral ou crime. Claro que existem as devidas proporções... crimes dolosos contra a vida não podem ficar impunes. Mas mesmo assim eu preferia não fazer parte disso. Até porque, a corrupção pra mim também é um crime doloso que afeta a vida de muita gente. E nenhuma punição é aplicada rigorosa ou exemplarmente para quem a comete. Talvez porque esteja enraizado na mente do povo brasileiro, que “o bom jeitinho” é levar vantagem em tudo... por isso os pequenos e grandes corruptos são perdoados.

Não sou nada religiosa, mas como estudei em colégio católico sei que Jesus disse algo mais ou menos assim: “Quem nunca pecou ERROU que atire a primeira pedra...”. [atendendo a um pedido, fiz uma pequena alteração nesta frase para não perder nem o amigo, nem a piada... quem?!.. quando?!.. onde?!.. piada?! que piada?! haha... essa ninguém vai entender... se é que alguém se interessa em ler as baboseiras que escrevo]

Não gosto dessa cultura do ódio. Isso me entristece muito. Principalmente do ódio vindo de pessoas que estão muito distantes da realidade da periferia. Das pessoas que não entendem que enquanto elas forem indiferentes a tudo que não pertence ao seu pequeno mundo, as desigualdades sociais aumentarão e com isso o crime se aproximará cada vez mais delas, que estão sendo forçadas a viver atrás das grandes de seus condomínios... Tendo como porta voz um imbecil como o Datena, que alimenta ainda mais esse ódio com suas frases esdrúxulas, tais como: “Tem que ter pena de morte nesse país... bandido tem mais é que morrer mesmo!”.

Apesar de tudo que acabei de mencionar, por outro lado, posso afirmar que participar de julgamentos foi (e por que não dizer que ainda é?) uma experiência muito enriquecedora do ponto de vista social. Passei a ter ainda mais contato com uma realidade que até então era mais conhecida por mim através de tais noticiários sensacionalistas.

Pra mim, ficou ainda mais clara a diferença com que ricos e pobres são tratados. Que a justiça realmente é diferente para quem pode pagar um bom advogado, e pra quem não pode. Disso todos sabemos, não é preciso estar participando do processo pra constatar... mas estar lá torna a coisa muito mais dolorosa. Senti na pele o quanto vidas são desprezadas, o quanto os direitos dos cidadãos não são cumpridos. Teoricamente todos teriam o mesmo direito à defesa. Todos deveriam ser iguais perante a lei. Mas infelizmente não são.

Um exemplo claro: casos de grande repercussão na mídia podem durar até uma semana, mas eu (que só participo de casos da periferia) já julguei casos que duraram meia hora. Já cheguei a ouvir do promotor: “Vamos acabar logo porque todos nós estamos com fome e queremos ir pra casa”. Ninguém se importa com o caso de um “mano” que comprou um revólver na feira do rolo pra dar fim em sua mulher, por ciúme. Pra maioria das pessoas tanto faz, é só mais um caso em meio a tantos outros. Mas quando alguém com um pouco mais de poder aquisitivo comete algum crime, todos ficam indignados. Como aconteceu no caso Nardoni. A classe média se chocou com o caso por ter uma identificação com a família. Até então eles eram como a maioria de nós. Mas muitas crianças são assassinadas na periferia por seus pais, tios, irmãos, etc. E parece que a vida delas não tem o mesmo valor.

Além da experiência de encarar as diferenças sociais, também acho interessante ouvir as histórias. Eu gosto de histórias (e estórias) de crimes. Não é à toa que adoro a série CSI. Então, neste aspecto também foi interessante participar do júri. A narrativa construída por bons promotores/ defensores é fascinante. Por alguns momentos parece até se tratar de ficção. Alguns fatos são simplesmente surreais.

Apesar de não gostar de julgar, com o passar do tempo fui me acostumando, não tem como fugir. E quem tem que pagar por seus crimes deve ser condenado. Mas tenho sorte de ter estado, algumas vezes, em júris que absolveram os réus. Fico feliz quando isso acontece.

Meu primeiro júri foi muito difícil. Ao ser sorteada e sentar naquela cadeira comecei a suar frio, fiquei muito nervosa.

A juíza, após ler o que constava no processo, perguntou ao réu se ele havia cometido tal crime. Ele olhou pra ela e disse com toda força que tinha: “NÃO!”.

Ele não disse mais nada, apenas “não”. Eu olhava para o réu e via em seus olhos inocência e simplicidade... senti sinceridade, não podia acreditar que ele era assassino... mas nunca se sabe, assassinos costumam ser bons atores no tribunal.

Nessa hora eu comecei a ficar ainda mais nervosa.. pensei: “Agora fodeu! O cara diz que é inocente.. Quem sou eu pra julgar?!”.

Pra minha sorte, o próprio promotor pediu a absolvição do réu por falta de provas.

Ele era um coitado que estava no lugar errado, na hora errada. Simples de tudo, era um pedreiro que trabalhava em uma obra na Cidade Tiradentes (Zona Leste de São Paulo). Em uma das festinhas noturnas que aconteciam na obra, houve uma briga e um homem foi encontrado morto em seu alojamento. Lembro até do nome da vítima, era Paulo. O promotor nos mostrou as fotos que estavam no processo (coisa de CSI mesmo!), fotos da vítima baleada no local do crime, laudos do IML, enfim.. coisas que causam um enorme impacto nos jurados.
Paulo teria sido assassinado por um tal de "japonês", que era segurança da obra, e por outro segurança não identificado. A administração da obra forneceu à polícia as fichas dos funcionários que trabalharam na obra naquele período. Na ficha do réu (do qual não lembro o nome), constava que ele era um dos seguranças. Isso bastou pra que ele fosse considerado suspeito. Mas com a morosidade da investigação, o tempo passou, a obra terminou e quando surgiu a intimação o réu já estava longe, acompanhando outra obra, e logo depois voltou pro nordeste para se casar.
Claro que ele não tomou conhecimento da intimação e por esse motivo foi considerado foragido.

Anos depois do ocorrido, o pobre infeliz foi ao Poupatempo tirar a segunda via do RG. Na hora constou a sua situação. De lá ele foi diretamente para cadeira, onde permaneceu por dois anos aguardando o julgamento. Sim, dois anos preso sem nem saber por que.

Segundo o réu, ele nunca foi segurança na obra, sempre foi pedreiro. As provas comprovaram que a empresa era extremamente desorganizada, que outras pessoas também tinham suas fichas cadastradas com funções que nunca exerceram. O próprio "japonês" que, segundo todas as evidências, era realmente culpado, foi julgado e absolvido anos antes.

Na sala secreta, como a promotoria e defensoria tinham a tese comum, ou seja, ambos pediam que o réu fosse absolvido, tivemos que responder apenas a uma pergunta: se nós concordávamos com essa tese. Sendo assim o réu seria absolvido e solto imediatamente. Por seis a um, absolvemos o réu. Quando a juíza leu a sentença, nem o réu, nem seus familiares entenderam os termos... nem mesmo quando ela disse que estaria providenciando o alvará de soltura... a simplicidade dessas pessoas era tanta que precisaram esperar que o defensor explicasse que o homem finalmente seria libertado.

Isso aconteceu logo no meu primeiro júri. Fiquei feliz por ter inocentado o homem. Mas fiquei triste por saber que ele ficou dois anos preso por absolutamente nada. Sem direito a uma defesa decente.

Segunda-feira estarei no fórum da Barra Funda novamente. Pode ser que eu não seja sorteada... pode ser que não haja julgamento... pode ser que o julgamento dure várias horas... pode ser que não dure nada... enfim.. o certo é que mais um cidadão terá seu destino definido por pessoas desconhecidas que muitas vezes fazem um pré julgamento antes mesmo que ele abra a boca para dar seu depoimento...




Fotos: Fabiane Duarte - Personagens de cera do Museu Ricardo Brennand em Recide-PE



terça-feira, 14 de setembro de 2010

Chapada dos Veadeiros


Este ano, quer dizer, ano passado, 2009, eu nem imaginava que pudesse pegar uns diazinhos de folga. Muito trabalho e algumas obras inacabadas em casa, entre outras coisas. De repente, num piscar de olhos, eu subitamente disse: “vamos para a Chapada dos Veadeiros”. Simplesmente fizemos as malas, preparamos o equipamento de camping, abastecemos o carro, e fomos. Até o destino final percorremos mais de 1200 Km.


Muito mais do que paisagens incríveis, o lugar tem pessoas muito especiais...

A entrada do parque nacional está localizada na Vila de São Jorge, pertencente à cidade de Alto Paraíso-GO. Saímos de São Paulo dia 23/12, fizemos algumas paradas para descansar e fomos direto para São Jorge, chegamos na véspera de Natal. Já estava escurecendo, resolvemos ficar no primeiro camping que encontramos, existiam vários, mas simpatizamos com o “Espaço Flora”, mais conhecido como camping do Pedu. Ao chegarmos fomos recebidos pelo próprio e por ninguém menos que Raul (Queixas, não Seixas), funcionário do camping.

Pedu é uma figura fantástica. Ele não estava nem aí pra bagunça. Não repreendeu as festas, bebidas, cantorias... foi extremamente simpático e atencioso durante todo período em que estivemos lá.

E o Raul então?! Fumava uns baseados e não conseguia fazer nada direito... perdi as contas de quantas vezes o Pedu demitiu e readmitir o coitado... Numa conversa, Raul nos contou que foi até Recife de bicicleta. Quanto tempo ele demorou? Dois anos e quatro meses. E não para por aí, ele estava planejando ir para Fortaleza pedalando. Previsão de tempo? Três anos e cinco meses. É, pra mim faz sentido, tempo proporcional à distância...

Despacho? Não, ceia de ano novo!
Todos que estavam no camping nos primeiros dias eram paulistas. Depois começou a chegar o pessoal de Brasília, e mais alguns paulistas. Houve uma grande interação entre todos que estavam no camping, o que tornou a estadia na vila muito divertida.

Era época de cheia, as paisagens mudam muito de acordo com a época do ano. A melhor época para poder aproveitar as cachoeiras é no inverno, na seca.

Em função do volume de água nos rios, algumas cachoeiras não puderam ser visitadas. Choveu todos os dias. Demos sorte de pegar algumas trilhas sem chuva, mas era preciso estar preparado porque ela aparecia sem o menor aviso.

Visitar as atrações sai caro. Como a maioria delas fica em propriedade particular, ou no Parque, o acesso é pago. R$ 10,00 aqui... R$ 8,00 ali... e por aí vai...


O Vale da Lua, um dos principais atrativos da Chapada, tem acesso fácil, fica a uns 800 metros da casa dos proprietários, mas como na ocasião fazia duas semanas que um casal tinha morrido ali, fomos obrigados a seguir com o acompanhamento de guia.

Outras trilhas exigiram acompanhamento de guias. No parque era obrigatório. Embora não houvesse a menor necessidade. Mas de certa forma, é assim que a renda de muitas pessoas que moram na vila é gerada.


A melhor trilha, e também a mais puxada, é a que leva a uma parte alta conhecida como “Janela”, de onde é possível avistar as cachoeiras do parque. Da janela, seguimos para o “Abismo”, onde se forma uma cachoeira temporária na cheia. Era o período ideal para conhecer.

Cachoeira do Abismo
Um dos guias que nos levou às trilhas do parque foi o Alexandre. Uma figura muito engraçada. Vegetariano e totalmente “natureba”, ele faz o próprio pão, não consome nada industrializado ou feito fora de casa. Senti uma certa inveja quando ele disse que no quintal de casa tem uma cachoeira e uma piscina termal. Que coisa mais desagradável! Queria ter só um pouquinho da qualidade de vida que ele tem...
Vista da "Janela"

Com chuva na maior parte do tempo, não restava muita coisa para fazer além de beber. A cachaça mais tomada por lá não é a 51, mas sim a 88 (será que faz referência à graduação alcoólica??). Claro que nem de curiosidade eu experimentei... quem bebia esta cachaça era o Pedu. Embora naquele momento ele estivesse na fase sóbria... ele disse que quando começa a beber são seis meses sem parar, depois ele para por seis meses, e pra justificar ele solta essa: ”Também! Aqui não tem nada pra fazer, não tem nem cinema!”.

O bar das piscinas 
Também existem piscinas termais na região, não são grande coisa, mas deu pra dar uma relaxada, principalmente quando a chuva e o frio não davam trégua. No bar das piscinas era possível tomar  cachaças mineiras como Boazinha, Seleta, Maria da Cruz, entre outras.  Lá também ouvi umas histórias hilárias. Uma garota nativa de São Jorge estava contando suas aventuras na cidade grande, provavelmente Brasília. Ela falava de forma muito esquisita (com uma voz lenta e cantada) e usava muitas gírias. Estava contando sobre sua dificuldade de se comunicar com surdos antes de aprender libras. Parte da história era assim: ela ficou incumbida de buscar uns amigos de sua irmã, todos surdos. Estava dirigindo. O tráfego lento. O trânsito a deixou desesperada. Nesse tempo ela pensava no quanto queria fumar um baseado pra aliviar a tensão, mas não podia, já que estava dando carona para pessoas desconhecidas. Mas como a tentação era muito grande ela decide fumar, pra sua surpresa todos aceitaram... ela encerra dizendo: “Vééiiooo!! Não acreditei! Quatro surdos maconheiros!!”.

Precisa dizer alguma coisa?
No bar do seu Claro (o preferido do povo local) a cerveja era mais barata e a diversão garantida. Dei muitas risadas com o “pancadão” criado pelo pessoal que compõe o bloco de carnaval da vila: “O helicóptero, o helicóptero... ele gira lá em cima a gente gira aqui embaixo...” (naquele exato momento eu estava girando mesmo). Claro que essa era uma brincadeira satirizando as músicas de “sucesso” do “funk” carioca, mas as marchinhas de carnaval falam sobre o cotidiano, belezas e personagens de São Jorge.

Bar do Waldomiro
E como não falar do seu Waldomiro?! O homem das cachaças curtidas e da famosa Matula (prato típico da Chapada). Num dia frio fomos até lá experimentar algumas das especialidades da casa, aproveitamos para almoçar. Ao chegarmos fomos recebidos como se fossemos velhos conhecidos, ele fez questão de cumprimentar um por um e dar as boas vindas.


No "jardim dos Gnomos"
Cansados de pagar, pagar e pagar. Fomos a um parque municipal, bem perto do camping. O lugar era lindo, parecia um jardim de gnomos, cheio de flores do cerrado e até um pequeno laguinho para banho (que também desaparece na época de seca).

Neste local passa o rio Preguiça (nome bem apropriado). Inacreditavelmente pude ter visões naquele lugar... assim como o Raul.. Ah.. eu não contei essa sobre ele! Em uma das vezes que foi demitido pelo Pedu (após fumar um, claro!), ele decidiu ir até a beira do rio para refletir.. voltou dizendo que teve uma visão, que viu a luz, que entendeu a razão da existência, ou qualquer coisa assim: “Eu tive uma visão e cheguei a uma conclusão!”. Qual foi essa conclusão? Ele respondeu: “Não posso revelar...”. Haha.. se me perguntarem quais visões eu tive, não vou responder o mesmo que o Raul... ele não podia revelar, mas eu simplesmente não consigo me lembrar.. haha


Depois de muitos dias no mesmo lugar, fomos embora para Brasília e de lá para Pirenópolis. Saí de São Jorge com o coração partido, sabendo que o lugar e as pessoas deixariam muitas saudades.

Depois de dois dias em Pirenópolis, tentamos conhecer Caldas Novas, eu queria fazer mergulho em água doce. Ao chegarmos na cidade eu fiquei assustada com a quantidade de gente, com os carros tocando músicas tão alto que a vibração fazia disparar os alarmes dos carros parados. Trânsito. Muito trânsito. Parecia a Praia Grande na época do carnaval. Desistimos de conhecer a cidade. Eu queria sair de lá e voltar pra casa o mais rápido possível. E foi o que fizemos.



Vou guardar ótimas lembranças deste paraíso no cerrado...