Nossa! Há quanto tempo quero escrever um diário de viagens... Minhas histórias já são velhas conhecidas, afinal, eu não paro de contá-las incansável e repetidamente. Mas achei melhor começar a escrever antes que eu me esqueça delas.
Mas por onde começar? Por minha primeira viagem internacional? Ciudad Del Este??
Acho que não... eu era muito pequena, tinha seis ou sete anos... lembro da decepção de não encontrar a boneca Barbie que eu tanto queria... também me lembro do delicioso suco de pêssego chileno e das batatas americanas Pringles... Além, é claro, do esconde-esconde de muambas dentro do ônibus para passar pelo posto da Polícia Federal... Que coisa engraçada! E eu nem conseguia entender o porquê de tudo aquilo... Nós nem tínhamos muito que esconder, minha mãe só comprou porcarias que hoje encontramos de toneladas na 25 de março...
Viajamos no mês de julho, ou era janeiro? Sei lá... Foi no período de férias escolares. Eu estudava em uma escola municipal. Quanto voltei às aulas, a professora pediu que cada um contasse o que fez nas férias. Como de costume, contei com riqueza de detalhes todas as minhas “aventuras”. E o que aconteceu? Fui chamada de mentirosa. Ninguém acreditou que eu realmente tivesse ido até o Paraguai, nem mesmo a professora. Por isso é melhor esquecer... Nada de relembrar traumas de infância.
Como não gosto de roteiros com histórias lineares, vou começar por minha primeira viagem internacional de verdade (Uma grande roubada, sem dúvida!). E, embora faça oito anos e meio, ainda consigo me lembrar de muitos detalhes.
Janeiro de 2001. Madureira e eu.
A idéia inicial era ir para o México. Cancún (que beleza! Lugar mais turístico e perfeito impossível!). Tudo estava devidamente planejado, roteiros de museus, praias, pirâmides, etc. Compramos um guia de viagens com todas as informações das quais precisávamos, sabíamos quanto as coisas custavam e de quanto dinheiro precisaríamos para fazer esta viagem... Tínhamos quase tudo. Exceto as passagens aéreas (coisa pouco importante neste caso, não é mesmo?!).
Sem desistir de Cancún, resolvemos comprar passagens para o local mais próximo possível - com valor bem menor - e depois chegar até lá de ônibus.
Escolhemos Bogotá na Colômbia. Que maravilha! Faríamos então um novo roteiro. Atravessaríamos o canal do Panamá e cruzaríamos toda a América Central até chegar à Península de Yucatán, no México. Na teoria, perfeito, já que tínhamos mais de 30 dias para isso. Poderíamos ter contato com culturas incrivelmente interessantes. Mas na prática não foi bem isso que aconteceu.
Bogotá – Colômbia
Eu cheguei em Bogotá primeiro, pela manhã, voando pela empresa colombiana Avianca. Não falava uma palavra em espanhol, não conseguia entender nada. Ele chegou à noite, voando Varig. Passei o dia todo no aeroporto e tive que me virar pra comer, trocar dinheiro e sobreviver até que ele chegasse e pudéssemos continuar a viagem.
Dormimos em um hotel no centro. Bem confortável e de preço acessível. Pela manhã pegamos um táxi e pedimos ao motorista que nos levasse à rodoviária. Ele perguntou para onde estávamos indo, e ao saber do roteiro, logo nos desencorajou. Disse que era muito perigoso, que para fazermos este trajeto, teríamos que passar por uma área dominada por guerrilheiros das FARC, que poderíamos ser sequestrados.
Meia volta. Voltamos para o aeroporto.
Eu achava que aquilo era exagero, não acreditei que fosse tão perigoso assim.
Segunda tentativa. Outro táxi.
Mais uma vez o motorista nos pergunta nosso destino. E mais uma vez ouvimos o mesmo discurso... Ele nos disse que poderíamos ir, mas que não voltaríamos.
Meia volta.
No aeroporto, tentamos comprar passagens aéreas para atravessar o canal do Panamá, já que este problema existia apenas no lado colombiano. Mas era muito caro para um trajeto tão curto. Ir direto para Cancún? Mesmo preço do que se tivéssemos saindo de São Paulo.
Estavam me colocando tanto medo, que eu só pensava em sair de lá o mais rápido possível.
Nos guichês do aeroporto, olhando todas as opções possíveis, decidimos comprar passagens aéreas promocionais para a Venezuela e desistir de vez de Cancún. Ficamos tentados por Cuba, mas como as passagens custavam o dobro do preço, optamos por Venezuela mesmo.
Caracas - Venezuela
Chegando em Caracas, qual a primeira coisa que ouvimos? Que aquele era um “sitio muy peligroso” (achavam que nós éramos europeus, mal sabiam que estávamos acostumados com a violência urbana de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro).
Já era tarde, pegamos um táxi para nos levar até o hotel mais próximo. O motorista do táxi disse que nos levaria para um hotel com diária de U$ 30,00. Mas ao chegar no hotel, queriam nos cobrar U$ 150,00. Indignada eu disse em bom português: “Nem fodendo, filho da puta, tá achando que sou trouxa?!” (ainda bem que eles não entenderam, e ainda achavam que eu estava falando italiano, por que será, não??). Voltamos para o aeroporto. E o taxista ainda queria nos cobrar a viagem de volta (pode?!).
É inacreditável, mas o aeroporto de Caracas não tem cadeiras, elas existem apenas nas áreas de embarque e desembarque, e como já estávamos do lado de fora, não tínhamos onde sentar. Encontramos então uma porta giratória que levava à área externa, local onde as pessoas observavam pousos e decolagens. Ali existiam bancos de cimento, e neles alguns Rippies dormiam. Pronto! Achamos o hotel ideal, dormimos no aeroporto também.
Amanheceu, compramos um mapa e traçamos o roteiro. Sul da Venezuela, divisa com o Brasil. Queríamos conhecer o Salto Angel, a maior cachoeira do mundo, com quase 1000 metros de queda d’água.
Seguimos do aeroporto para a rodoviária. Pegamos ônibus e metrô. Estávamos cheios de bagagem (afinal, a viagem seria longa), e nessas condições, não foi nada fácil circular pelas ruas da cidade e muito menos utilizar transporte coletivo.
Interessante que tanto nos ônibus, quanto no metrô, as tarifas eram cobradas de acordo com o trajeto, lugares mais próximos, passagens mais baratas, mais distantes, mais caras (imagina se fosse assim em São Paulo... Capão Redondo, Cidade Tiradentes, Parelheiros... já pensou?!).
No metrô este controle era feito da seguinte forma: a catraca devolvia o bilhete após o embarque na estação de origem, e este mesmo bilhete deveria ser inserido na catraca para liberar o desembarque na estação de destino. Claro que não sabíamos disso. Primeiro não entendemos porque a catraca devolveu um bilhete que só continha uma viagem. Mas depois descobrimos quando fomos barrados nas catracas na Estação Gato Negro (deve ter sido este o motivo do “azar”). Compramos bilhetes mais baratos que não nos davam direito de desembarcar naquela estação. Tivemos então que pagar a diferença de valor para podermos sair.
Praticamente todos os ônibus tinham Insulfilm escuro, num tom meio roxo (muitos com estas películas rasgadas). Alguns tinham ar-condicionado, e quase todos tocavam músicas num volume muito alto. Isso me chamou muito a atenção.
Depois de certo “trabalho” para chegarmos até a rodoviária, ainda tivemos que esperar mais um pouco até o horário de partida do ônibus.


Chegando em Santa Elena de Uiaren descobrimos que visitar o Salto Angel sairia muito caro, teríamos que pegar um avião, ou um helicóptero (sem chance!).
Como estávamos na fronteira com o Brasil, fomos até Pacaraima/ RR. Passamos uns dois dias por lá. Não fi


Voltando para Santa Elena, fizemos um passeio pela Gran Saba


Outra coisa interessante nas cidades em que estivemos, era a grande quantidade de táxis circulando, além da insistência e da disputa entre os taxistas para conseguir um cliente. Todos carros velhos, barcas enormes que consumiam mu

Ao chegar na rodoviária de Porto La Cruz, ouvimos a tão mencionada frase: “táxi a la orden”. Não pegamos o táxi, nem ficamos na rodoviária até amanhecer, como imaginávamos. O lugar era um pouco hostil, as pessoas nos olhavam com cara de poucos amigos. Ficamos receosos e saímos, a pé, a procura de um hotel.

No dia seguinte pegamos o Ferry par

Ao desembarcar do porto, logo procuramos um lugar para ficar, e bem próximo a ele encontramos uma pousadinha simpática, bem simples e barata.
Confesso que senti uma certa emoção por estar pela primeira vez em uma ilha caribenha.

Em um desses dias, decidimos ir para a Playa Caribe. Só que desta vez queríamos experimentar a vida de bacana, sentar numa espreguiçadeira, tomar cerveja e contemplar o mar, nada de ficar andando e fotografando.
Para chegar à praia pegamos um ônibus gratuito. Quando perguntamos como

Felizes, pegamos a “buceta”, curtimos a praia, tomamos cerveja e ficamos na espreguiçadeira. Exatamente como planejado. Ufa! Um dia de descanso, certo?
Errado. Não contávamos que, mesmo consumindo bebidas no bar, nos cobrariam o aluguel da espreguiçadeira (dá pra acreditar?! Não era nada especial, era só uma cadeira de plástico mesmo!). Ficamos sem um Bolívar no


Este táxi era um carro enorme (até aí quase todos eram), nem sei dizer o modelo ou marca, sei que era muito velho e colorido. Os bancos eram revestidos com estampa de onça, existiam muitos penduricalhos no espelho do pára-brisa, tocava música caribenha num volume muito alto, e o melhor, tinha um cachorro e um tigre sobre o painel - aqueles de gesso revestidos com pó de camurça que tem a cabeça presa por molas. A cada buraco que passávamos os dois bichos mexiam a cabeça, sincronizados com o ritmo da música. Inesquecível (e justo neste dia não levamos as câmeras fotográficas, que pena...).
Todos os dias nós comíamos pastelitos, uma espécie de empanada, mas com massa mais leve. Era baratinho e o dono do lugar era muito simpático, adorava conversar. Ele também preparava uma bebida chamada papelon de limon (rapadura ralada com limão.. delícia!).
Pró

Nesta pousada em que estávamos, os quartos não tinham parede, era uma

Em uma das várias conversas com este sujeito, ele nos recomendou que visitássemos a cidade de Valencia para conhecer o artesanato local.
Depois de cinco dias na ilha, seguimos o conselho do carioca. Pra que?! Roubada!
Pegamos o Ferry de volta para Porto La Cruz e, então, um ônibus para Valencia. Mas o destino real era Punto Fijo, onde o mapa que compramos no aeroporto dizia ter Ferry para Aruba. Como Valencia ficava no meio do caminho, decidimos arriscar.
Chegando em Valencia, a maioria das lojas de artesanato estava fechada, e pelo pouco que vi não parecia que era grande coisa, nada que justificasse passar uma noite naquele lugar. Imediatamente compramos as passagens para Punto Fijo. O ônibus vinha de Caracas, e já estava cheio, restavam apenas dois lugares separados. Este ônibus era muito velho e desconfortável, suas poltronas eram estreitas demais. Sentei ao lado de um homem muito obeso que ficava com o cotovelo em cima de mim, e por mais que eu tentasse me encolher, era impossível.
Punto Fijo - Venezuela
Ao chegarmos em Punto Fijo, descobrimos que não havia Ferry para Aruba, só dava para chegar de avião.
Lá comíamos apenas perro caliente, que vinha com uma salsicha, mostarda, ketchup e muita cebola picada (diferente, mas até que era gostoso).
No “mini” aeroporto de Punto Fijo, resolveram revistar toda a nossa bagagem. O guarda quis abrir cada embalagem de creme ou remédio para saber o que era e pra que servia. Superado este constrangimento, embarcamos. O voo em um avião pequeno foi bastante turbulento, mas a vista valeu a pena (na época achei que voar em um avião deste tipo era emocionante, eu ainda não conhecia a Chapi Air, mas essa é outra história).
Aruba - Mar do Caribe, Ilha Holandesa


No primeiro dia ficamos em um quarto de U$ 50,00, mas logo vagou


Estávamos em Aruba, que maravilha! Mas, além de hospedagem também precisávamos de comida, certo? Devo admitir que nesta viagem comida não era algo de primeira necessidade. Como já estávamos quase sem dinheiro, tínhamos que passar longe dos maravilhosos restaurantes à beira mar. O jeito foi comer pão com queijo holandês e tomar vinho francês, tudo comprado nos mercadinhos dos chineses (globalização!). Essa foi a nossa alimentação durante dez dias (café da manhã, almoço e janta), raramente abríamos uma exceção nessa dieta nada balanceada e comíamos alguma coisinha no McDonald´s (ah, isso sim é dieta balanceada! Mas lá pelo menos tinha panquecas e sorvete de casquinha).
Durante o dia pegávamos sempre o mesmo ônibus que saia de Oranjestad (capital da ilha) e passava pela costa dos hotéis. Às vezes descíamos na praia Palm Beach, frequentada por turistas felizes e cheios de dinheiro. Mas na maioria das vezes íamos para Ar

Andar de ônibus era a opção mais barata, mas para conhecer determinadas partes da ilha foi preciso alugar um carro por um




Esta região é muito seca. Não há água doce na ilha. Toda a água consumida é proveniente de uma usina de dessalinização. Vimos até um bode dilacerando um cacto para beber sua água.
Logo nos primeiros dias, minha única sandália arrebentou, além dela eu só tinha um tênis, e como os calçados por lá eram muito caros, acabei comprando uma sandália vagabunda de E.V.A no mercadinho chinês, e é claro que ela arrebentou mais rápido que a outra. Passei o resto dos meus dias em Aruba com uma sandália remendada com durex... inclusive para ir aos cassinos à noite (isso é que é estilo).


Na cidade de San Nicolas, a sudeste da ilha, existe um bar muito conhecido chamado Charlie’s, cheio de velharias, peças penduradas no teto e placas de carros nas paredes.
À noite íamos para os Cassinos, a maioria deles servia bebidas gratuitamente para os jogadores, e como uma Heineken long neck custava U$ 3,00 na maioria dos bares, o jeito era enrolar em uma máquina cassa-níquel de U$ 0,05 pra poder beber uns choppinhos de graça (pior foi que um dia joguei na máquina de U$ 0,25, ganhei U$ 50,00, fiquei tão feliz que viciei, claro que perdi tudo e

A ilha tem outras atrações das quais não pudemos desfrutar, e alguns outros locais que não visitamos, como as cavernas, por exemplo. Mas foi muito tranquilo conhecer a ilha, não tivemos nenhuma dificuldade porque a comunicaç

Depois

O carnaval deles, El Bacanal, estava acontecendo naquele mês, janeiro. Não vimos pessoalmente, mas acompanhamos alguma coisa pela televisão, lembro até da musiquinha: "Carnaval, bacanal... Aruba´s bacanal...".


Depois de vivermos essa experiência, tivemos que voltar à realidade. Venezuela.
De volta à Caracas - Venezuela
Todo caminho percorrido até Aruba, agora deveria ser feito de uma vez. Foram praticamente três dias de viagem (sem banho) até chegar à Bogotá. Avião de Aruba a Punto Fijo. Ônibus de Punto Fijo à Caracas. Metrô e ônibus circular de Caracas até Maiquetia (região metropolitana de Caracas onde fica o aeroporto internacional). Depois, passamos 24 horas esperando o horário de nosso voo para Bogotá (isso é o que dá comprar passagem promocional!). Dormimos mais uma noite no aeroporto de Caracas.
O que mais nos assustou na Venezuela, não só em Caracas, mas também em outros lugares onde estivemos, foi o alto custo de vida. Não estávamos preparados para isso. Comida cara, hospedagem cara. Comemos empanadas, arepas e perros calientes em praticamente todos os vinte dias em que estivemos no país. Tivemos até que fazer alguns saques com o cartão de crédito.
Fora que achei os hábitos alimentares deles muito ruins, até meio americanizados... comidas muito gordurosas, lanches, e até bacon e ovos fritos no café da manhã (senti tanta falta de um pingado e um pão na chapa...).
Em função do alto custo de vida, acabamos gastando muito mais do que planejamos gastar.
No fim das contas, se eu tivesse comprado a passagem aérea de São Paulo direto para Cancún, teria saído bem mais barato.
Chegando em Bogotá, fomos conhecer o museu do Ouro e passear um pouco pela cidade para conhecê-la. Não deu para conhecer muita coisa, mas o pouco que conheci me agradou muito.
Fiquei encantada com aquilo! Além das bicicletas no meio da rua, as calçadas eram tomadas por vendedores ambulantes que estendiam lonas no chão para vender velharias como sapatos, partes internas de aparelhos eletrônicos, discos, etc. (Anos mais tarde conheci a feira do rolo em São Mateus, periferia da zona leste de São Paulo, incrível, mas era igual, na hora lembrei desta experiência). Não sei se isso acontecia todos os domingos, ou se era alguma ocasião especial. Mas andar pelas ruas naquele dia foi muito divertido.
Assim como nas grandes cidades brasileiras, existem pessoas cantando, ambulantes, mágicos, pintores, bêbados entre outros. Pessoas fazendo de tudo por alguns trocados. Estava praticamente em casa. Percebi que os colombianos são bem mais parecidos com os brasileiros do que eu podia imaginar, tanto em comportamento quanto em diversidade étnica, pelo menos em Bogotá. Lá eu andava tranquilamente pelas ruas sem parecer turista, existiam muitas pessoas com as mesmas características. O que não aconteceu nos lugares por onde andei na Venezuela, onde as pessoas tinham predominantemente traços indígenas.
No começo da viagem, quando cheguei à Colômbia, eu mal sabia pedir uma caneta emprestada para preencher a ficha de imigração para entrar no país. Na volta, bati o maior papo com o motorista do táxi e com o atendente do guarda-volumes do aeroporto.
Voltei para São Paulo, com algumas fotos e com pequenas histórias. E por mais que eu tenha tentado descrevê-las aqui, deixei de fora muitos detalhes dos quais ainda me lembro muito bem.
Essa foi, de fato, uma grande aventura, que me fez aprender muitas coisas, mas a principal delas foi: Se quiser viajar para algum lugar, compre a passagem para o destino correto!